Vida na Suíça ·
Spitex e cuidar de um familiar na Suíça: quem paga, licenças e apoios
Como pedir cuidados em casa, quanto pagas, o subsídio por incapacidade, os dias de licença para quem trabalha e os bónus AVS para quem cuida. E o que muda quando os pais vivem em Portugal.
Por Ricardo Da Silva, fundador do Rumo Suíça, na Suíça há mais de 30 anos
Verificado e atualizado a
O teu pai sai do hospital e já não consegue tomar banho sozinho. O teu filho fica gravemente doente. A pessoa com quem vives precisa de ajuda em casa. Na Suíça existem cuidados ao domicílio e apoios a quem cuida, mas raramente alguém te explica o conjunto. Aqui fica o essencial.
Muitas regras dependem do cantão e até da comuna. Confirma sempre localmente.
O que é a Spitex
Spitex quer dizer cuidados e ajuda em casa. Podes pedi-la em qualquer idade: por doença física ou mental, por problemas de velhice, depois de um acidente ou de um parto, ou numa gravidez com complicações.
Há vários tipos de serviço:
1. Avaliação, conselho e coordenação.
2. Exames e tratamentos: feridas, medicação, injeções, perfusões.
3. Cuidados de base: lavar, vestir, comer, mobilidade, meias de compressão.
4. Ajuda em casa: limpeza, compras, roupa.
5. Consoante a região: refeições ao domicílio, transporte e aluguer de canadianas ou cadeiras de rodas. Há também cuidados especializados em oncologia, demência, cuidados paliativos e psiquiatria.
Existem organizações públicas e privadas. As que têm obrigação de assistência têm de aceitar toda a gente.
Como pedir
1. Procura a organização da tua zona pelo código postal em spitex.ch ou liga para o número nacional 0842 80 40 20. A comuna também te pode indicar.
2. Fala com o médico de família ou com o hospital antes da alta. Os exames e tratamentos precisam de receita ou de mandato médico. Os cuidados de base e a avaliação podem ser feitos sem receita, segundo o relatório federal de 2025, mas pergunta na Spitex como fazem na prática.
3. Uma enfermeira faz uma avaliação das necessidades. É repetida pelo menos de 9 em 9 meses. O que ultrapassar essas necessidades pagas tu.
A Spitex Suíça tem um folheto em português. Atenção: não tem data e, no ponto da receita, diz algo diferente do relatório de 2025.
Quem paga
Os cuidados são divididos entre três:
1. O seguro de saúde (LAMal) paga um valor fixo por hora: 76,90 francos pela avaliação, 63 francos por exames e tratamentos e 52,60 francos por cuidados de base.
2. Tu pagas a franquia e os 10 % de participação do teu seguro e, consoante o cantão, uma contribuição diária de no máximo 15,35 francos. Alguns cantões cobram menos ou nada. Vê a lista dos cantões, de abril de 2026. Muitos não a cobram a menores. Nos cuidados agudos de transição também não há esta contribuição.
3. O cantão e a comuna pagam o resto.
A ajuda em casa (limpeza, compras) é outra coisa: o seguro de base não a paga. Alguns seguros complementares pagam, muitas vezes com limite de horas por ano. Antes de contratar, pergunta o preço por hora, que varia.
Se o dinheiro não chegar
Quem recebe as prestações complementares pode ser reembolsado dos custos de ajuda e de cuidados em casa, até limites anuais, se pedir em 15 meses a contar da fatura.
Subsídio por incapacidade
Quem precisa regularmente da ajuda de outra pessoa para se vestir, lavar ou comer, ou de vigilância, pode ter direito a um subsídio por incapacidade (allocation pour impotent / Hilflosenentschädigung). Não depende do rendimento nem do património.
Na AVS, com pensão de velhice, a incapacidade tem de durar há pelo menos 6 meses, sem interrupção. Por mês, em 2026:
1. Ligeira: 252 francos, só para quem vive em casa.
2. Média: 630 francos.
3. Grave: 1008 francos.
Na AI, em 2026, para quem vive em casa: 504, 1260 ou 2016 francos por mês. Em lar: 126, 315 ou 504 francos. Há valores próprios por dia para menores, com um suplemento para cuidados intensivos. O pagamento retroativo vai no máximo até 12 meses antes do pedido, por isso não adies.
Quem já recebia o subsídio da AI mantém pelo menos o mesmo valor na AVS. A Pro Senectute ou a tua caixa AVS dizem-te para onde enviar o pedido.
Se trabalhas e tens de cuidar de alguém
1. Licença curta (art. 329h do Código das Obrigações): para cuidar de um familiar ou do teu parceiro com um problema de saúde, tens direito a licença paga pelo tempo necessário, no máximo 3 dias por caso e 10 dias por ano. Avisa logo o patrão, que pode pedir um atestado. Quando o doente é o teu próprio filho, o cantão de Vaud indica que o limite dos 10 dias não se aplica. Pergunta aos recursos humanos ou ao teu sindicato.
2. Licença longa, para pais (art. 329i): se o teu filho menor está gravemente doente ou acidentado, tens até 14 semanas num período de 18 meses, com um subsídio de 80 % do rendimento, até 220 francos por dia. Se ambos os pais trabalham, são 7 semanas para cada um, salvo acordo. Podes tirá-la de uma só vez ou em dias. Durante esse direito, tens proteção contra o despedimento, no máximo durante 6 meses. Uma fratura ou uma pneumonia não contam, e uma deficiência estável, por si só, também não.
Esta licença é pedida com um atestado médico próprio (formulário 318.744). Também pode haver direito no caso de independentes e de pessoas no desemprego.
Bónus AVS para quem cuida
Cuidar de um familiar pode aumentar a tua futura pensão AVS. Não é dinheiro agora: é um valor somado aos teus rendimentos no cálculo da reforma. Para teres direito:
1. A pessoa cuidada recebe um subsídio por incapacidade da AVS, AI, seguro de acidentes ou seguro militar.
2. É um familiar próximo: cônjuge, filhos, pais, irmãos, avós, netos, sogros, enteados ou um parceiro com quem vives há pelo menos 5 anos.
3. Vives perto: pelo menos 180 dias por ano a menos de 30 km ou a menos de uma hora de caminho.
Tens de pedir todos os anos, para o ano anterior, à caixa de compensação do cantão da pessoa cuidada (formulário 318.270). Não esperes pela reforma: depois já não dá para verificar. Não passa da pensão máxima e não se soma aos bónus educativos do mesmo ano.
Ser pago para cuidar de um familiar
Na Suíça existem organizações de Spitex que empregam familiares para os cuidados de base. A lei e os tribunais permitem-no, com supervisão de uma enfermeira. Os exames, os tratamentos e a avaliação continuam a ser só para pessoal de enfermagem.
O fenómeno cresceu depressa. Um inquérito federal de 2025 a organizações que responderam mostrou nove vezes mais familiares empregados em 2024 do que em 2022, e um salário bruto médio de cerca de 35 francos por hora. O mesmo relatório indica que as organizações recebem em média cerca de 80 francos por hora, e menos de dois terços cumprem a regra da formação mínima num ano. Por isso, a Spitex Suíça pede regras nacionais mais apertadas.
Antes de assinares com uma destas empresas:
1. Lê o contrato: salário, horas contadas, férias, descontos.
2. Confirma quem te supervisiona e que formação te dão.
3. Pergunta ao cantão se há regras próprias. Os cantões podem limitar a remuneração.
4. Pensa no impacto em ti: cuidar a tempo inteiro desgasta. Mantém tempo para ti e um plano para as férias.
Quem te pode ajudar
1. Pro Senectute: conselho gratuito em mais de 100 escritórios, ajuda em casa, cursos e apoio a familiares. Linha 058 591 15 15.
2. Cruz Vermelha: conselho e substituição por algumas horas, consoante o cantão.
3. Associação proches aidants, na Suíça francesa: linha 0800 77 88 00, grupos e apoio individual.
4. Em Vaud, há um serviço específico: procheaidant@vd.ch.
Não encontrámos uma linha de apoio em português. A Spitex e a AVS têm alguns folhetos na nossa língua, e a Cruz Vermelha publicou testemunhos.
Quando os pais vivem em Portugal
É uma situação comum, e infelizmente os apoios suíços quase não ajudam:
1. O subsídio por incapacidade da AVS e as prestações complementares não são pagos fora da Suíça.
2. Na UE, os cuidados seguem as regras do país onde a pessoa vive. Confirma o que há em Portugal junto da Segurança Social.
3. Uma pensão AVS, essa, continua a ser paga. Se a pessoa está coberta pelo seguro suíço e vive na UE, usa o formulário S1 no país de residência (informa-te na Instituição comum LAMal).
4. O bónus AVS exige a tal proximidade e um subsídio suíço, portanto, pelas regras, parece não se aplicar a pais em Portugal. Confirma com a caixa de compensação.
Quem pensa em trazer os pais para a Suíça deve saber que a autorização depende de regras próprias: em geral, para quem não trabalha, são precisos meios suficientes e um seguro de saúde e acidentes. Pergunta ao serviço de migração do cantão antes de decidir.
E se a pessoa já não puder decidir?
Convém falar disto antes de acontecer. Vê diretivas antecipadas e fim de vida e, sobre a representação legal, o artigo sobre a KESB/APEA.
Resumo
Fala com o médico e com a Spitex antes da alta. Pede o subsídio por incapacidade cedo. Se trabalhas, conhece as licenças. Cuidas de um familiar? Pede o bónus AVS todos os anos, e pede ajuda antes de ficares sem forças.
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