Trabalho ·
«Vitamina B» na Suíça: como os contactos ajudam a encontrar trabalho (e o que dizem os números)
O que quer dizer, quantos empregos passam mesmo por contactos, onde conta mais e como construir a tua rede sem pagar a ninguém e sem depender de cunhas.
Por Ricardo Da Silva, fundador do Rumo Suíça, na Suíça há mais de 30 anos
Verificado e atualizado a
Na Suíça, vais ouvir dizer que alguém arranjou trabalho graças à «Vitamina B». Não é um suplemento: é uma forma de falar dos contactos. Conhecer as pessoas certas pode abrir portas, mas não substitui as competências, a língua nem um bom dossiê.
O que quer dizer
O «B» vem de Beziehungen, a palavra alemã para relações ou contactos. Na prática, a Vitamina B é alguém que te avisa de uma vaga antes de ser publicada, que entrega o teu CV ao chefe ou que diz bem do teu trabalho.
Quantos empregos passam por contactos?
Vais ler números muito diferentes, porque nem todos medem o mesmo:
Quase metade: um artigo de 2019 na revista A Vida Económica, do SECO, diz que quase metade dos empregos é conseguida através de contactos informais.
70 %: em 2017, a imprensa noticiou um estudo do Serviço de Economia e Trabalho de Zurique, ainda por publicar, segundo o qual só 30 % das contratações passam por um anúncio público. Na saúde e na área social, 78 % das vagas não seriam anunciadas. Vaga não anunciada não quer dizer cunha: pode ter sido preenchida dentro da própria empresa, por exemplo.
10 % só por colegas: num inquérito de 2010 às empresas, do Monitor do Mercado de Trabalho, 10 % dos lugares preenchidos tinham sido procurados apenas através dos contactos dos empregados e 5 % apenas através de clientes e parceiros. Estes dois caminhos eram os mais usados, sobretudo nas pequenas e médias empresas.
Conclusão: os contactos contam muito, mas ninguém tem um número exato, e estes dados já têm alguns anos. Desconfia de quem te diz que sem cunha não há trabalho. Continuam a existir muitas vagas anunciadas.
Uma recomendação ajuda mesmo?
Ajuda, mas não faz milagres. Num estudo da Universidade de Lausanne, 720 responsáveis de recursos humanos avaliaram mais de 5000 candidatos fictícios. Os que vinham recomendados por um empregado da empresa tiveram melhor nota do que os que só enviaram um email, com uma diferença pequena.
O mesmo estudo traz um aviso para quem emigra: a recomendação melhorou a avaliação dos migrantes, mas não compensou toda a desvantagem. A autora explica também que as redes de muitos migrantes têm pessoas com menos ligação ao mercado de trabalho, e que quem não tem a formação certa raramente é recomendado.
Onde costuma contar mais
Um guia da Embaixada da Alemanha em Berna refere que, na construção, nas vendas e na hotelaria, os lugares são muitas vezes preenchidos por recomendação oral. São setores onde muitos portugueses já trabalham, por isso vale a pena falares com quem lá está.
Como construir a tua rede
1. Diz exatamente o que procuras. «Aceito qualquer coisa» não ajuda ninguém a recomendar-te. Melhor: «Sou pedreiro, tenho 8 anos de experiência, falo francês básico e procuro em Vaud a partir de março.» 2. Diz a quem conheces que estás à procura. Família, amigos, antigos colegas, associações. Não tenhas vergonha, mas não perguntes todas as semanas pelo mesmo. 3. Tem o dossiê pronto. Se alguém pedir o teu CV hoje, envia-o hoje. O nosso editor de CV faz um CV no formato suíço. 4. Procura a comunidade. O mapa da comunidade mostra associações portuguesas por cantão, e quem tem negócio pode ver a comunidade de empreendedores. 5. Sai também do círculo português. Cursos de língua, clubes e vida de bairro abrem contactos diferentes, e ajudam-te com a língua da região. 6. Usa o LinkedIn, se fizer sentido na tua profissão. Mantém o perfil em dia, na língua da região. 7. Escreve às empresas que te interessam. No mesmo inquérito de 2010, cerca de 30 % das empresas recorriam a candidaturas espontâneas. Envia poucas, personalizadas, e tu próprio. 8. Fala com agências de trabalho temporário. Podem conhecer vagas e empresas que tu não conheces: vê a nossa lista de agências. 9. Agradece e ajuda os outros. Conta a quem te ajudou como correu, e passa a palavra quando souberes de uma vaga para outra pessoa.
Se alguém te recomendar
Quem te recomenda põe o próprio nome em jogo. Sê honesto sobre o que sabes fazer, a língua que falas e quando podes começar. Se recomendares alguém, recomenda só quem conheces: uma má recomendação prejudica os dois.
Com conhecidos também há regras
Um emprego arranjado por um amigo continua a ser um emprego como os outros. Pede um contrato, de preferência por escrito, confirma o salário e os descontos, e vê se há um salário mínimo ou uma convenção coletiva para o teu caso. Podes usar a nossa ferramenta para verificar uma oferta.
Nunca pagues por um «contacto» ou por uma promessa de trabalho. Pedir dinheiro antes de haver contrato é um sinal de alarme, mesmo que venha de alguém que fala português.
E para encontrar casa?
Os contactos também ajudam aqui: quem vai sair de um apartamento pode avisar-te antes de ele aparecer nos sites. Mas a decisão continua a ser da agência ou do proprietário, por isso precisas na mesma de um dossiê completo. Vê o guia da casa.
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