Antes de vir ·
Na Suíça o dinheiro não cai das árvores: a verdade antes de emigrar
Trabalho duro, rendas e seguro de saúde caros, faturas que não param, solidão, a aldeia de Albinen e as burlas do dinheiro fácil: a realidade da Suíça, com números oficiais, para partires de olhos abertos.
Por Ricardo Da Silva, fundador do Rumo Suíça, na Suíça há mais de 30 anos
Verificado e atualizado a
Em Portugal ainda se ouve que, na Suíça, «o dinheiro cai das árvores». Não cai. Os salários são altos, mas a vida também é cara, o trabalho é exigente e a distância da família pesa. Este artigo não é para te desanimar: é para partires de olhos abertos. No Rumo Suíça, dizemos sempre a verdade, dentro da lei e da realidade, mesmo quando não é o que se quer ouvir.
O trabalho: cedo, muitas horas, ao frio
Nas obras, nas limpezas, na agricultura, nos transportes ou na restauração, é normal começar o dia muito cedo, de madrugada nalguns setores, e fazer semanas longas. No inverno, quem trabalha ao ar livre passa dias com temperaturas negativas, neve e gelo.
Como escreveu em 2022 a página Ajuda Emigrante, numa mensagem que muitos portugueses partilharam: há casos de sucesso, mas «não foi a abanar a árvore do dinheiro, foi com muita força e trabalho».
As contas: ganha-se bem, mas gasta-se muito
Alguns números oficiais para teres uma ideia:
Renda: segundo o Departamento Federal de Estatística (OFS), a renda média de um apartamento de 3 divisões (sala e dois quartos) era de cerca de 1450 francos por mês em 2024, na média do país. Nas cidades como Zurique, Genebra ou Lausanne é bem mais.
Seguro de saúde: obrigatório para cada pessoa da casa. Em 2027, o prémio mediano de um adulto com a franquia de 2500 francos vai de cerca de 250 francos (Zug) a mais de 500 francos (Genebra) por mês. E mesmo com seguro pagas a franquia e 10 % das despesas.
Impostos, transportes, a taxa da rádio e televisão (Serafe), o lixo pago ao saco, a creche dos filhos: tudo conta. Vê a lista completa dos impostos e taxas.
Faz as tuas contas antes de partir, com o teu salário e a tua cidade, na calculadora quanto custa viver na Suíça.
As faturas não param
Em Portugal, um seguro que não pagas acaba por ser anulado. Na Suíça, o seguro de saúde não pode ser anulado por falta de pagamento: as faturas continuam a chegar, com custos de cobrança, e podes ter um processo de cobrança (poursuite / Betreibung), que fica registado e dificulta, por exemplo, arrendar casa.
Se as contas não chegam, não esperes: pede o subsídio do seguro de saúde se tens direito e fala com o serviço social da tua comuna ou com uma associação de apoio ao endividamento.
O que não aparece nas fotografias
A solidão é real. Muitos vivem sozinhos, de casa para o trabalho, a contar os dias até às férias em Portugal. Não se vê envelhecer os pais, os netos crescem longe dos avós, e o telefone que toca a meio da noite é um medo que todos os emigrantes conhecem.
Ajuda muito aprender a língua da região, conhecer outros portugueses e as associações da tua zona (vê o mapa da comunidade portuguesa) e criar uma rotina fora do trabalho. Se te sentes em baixo há muito tempo, fala com o teu médico de família ou liga para o 143 (La Main Tendue / Die Dargebotene Hand), anónimo, a qualquer hora do dia e da noite.
A aldeia que «paga para ires viver lá»
Circula muito a notícia de Albinen, uma aldeia do Valais que paga para atrair moradores. É verdade, mas com condições muito apertadas: desde 2017, a comuna dá 25 000 francos por adulto e 10 000 por criança a quem tiver menos de 45 anos, comprar ou construir lá uma casa de pelo menos 200 000 francos para viver todo o ano, e ficar pelo menos 10 anos. Se sair antes, devolve o dinheiro.
Não é um prémio para quem chega de Portugal à procura de trabalho: é para quem já tem meios para comprar casa na Suíça. Desconfia de quem te venda esta história como «a Suíça paga para emigrares».
Burlas: «árvores de dinheiro» e promessas fáceis
Cuidado com quem promete:
emprego garantido na Suíça a troco de dinheiro adiantado (para o contrato, o alojamento, a autorização);
investimentos com lucros certos e altos (plantações, criptomoedas, «reflorestação», imobiliário no estrangeiro);
cursos ou «mentorias» que ensinam a ficar rico depressa.
Na Suíça, nenhuma empresa séria te pede dinheiro para te contratar. Antes de investir, procura o nome na lista de avisos da FINMA, a autoridade suíça dos mercados financeiros. Antes de responder a uma oferta de emprego, passa-a pela nossa ferramenta esta oferta é de confiança?.
Então vale a pena?
Para muitos portugueses, sim: há trabalho, os salários pagam as despesas e permitem poupar, e muitos construíram aqui uma vida boa. Mas vale a pena com preparação: uma profissão clara, a língua da região, um CV no formato suíço e contas feitas antes de partir.
É isso que fazemos no Rumo Suíça. Não prometemos emprego nem dinheiro fácil. Damos-te a informação verdadeira, dentro da lei, e as ferramentas para te preparares bem. Começa pelo diagnóstico grátis: em 3 minutos, dizemos-te com honestidade onde tens hipóteses reais. E lê os nossos princípios.
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