Rumo Suíça
← Blog

Vida na Suíça ·

Portugueses na Suíça: para lá do cliché da mulher a dias e do pedreiro

«A minha mulher a dias é portuguesa.» De onde vem o cliché, o que dizem os números oficiais sobre as profissões dos portugueses na Suíça e como responder com calma no trabalho, na escola e numa entrevista.

A Mariana mora em Nyon e tem um curso de relações internacionais. Um dia, um homem que não a conhecia descobre que ela é portuguesa e, sem mais, pergunta-lhe se não quer ir fazer limpezas para casa dele. Foi esse episódio que a levou a criar, com a Catarina Antunes, uma exposição de retratos chamada «Au-delà des clichés» (para lá dos clichés).

Em 2016, a exposição mostrou 165 mulheres portuguesas a trabalhar em cerca de quarenta profissões: polícia, arquiteta, psicóloga, caixa de supermercado. Passou por Nyon, por Berna e por Friburgo, com o apoio da Federação das Associações Portuguesas na Suíça. Uma das organizadoras resumiu assim o problema, numa entrevista à RTS: somos bem recebidas se fizermos limpezas, mas as outras profissões nem sempre são bem-vindas.

Dez anos depois, o cliché («a minha mulher a dias é portuguesa», «são todos pedreiros») ainda se ouve. Vemos de onde vem, o que dizem os números e como responder.

Primeiro: limpar e construir é trabalho digno

Este artigo não é contra quem limpa casas ou levanta prédios. Foram esses homens e mulheres que abriram caminho a todos os que vieram depois. São trabalhos duros, que exigem competência, e na Suíça têm regras: a construção (o «secteur principal de la construction») e a limpeza (por exemplo, a «CCT romande du nettoyage») têm convenções coletivas de trabalho (CCT) alargadas pelas autoridades a todas as empresas do setor. Uma CCT fixa, entre outras coisas, regras sobre o salário.

O problema não é a profissão. É a ideia de que um português só pode fazer isso.

De onde vem o cliché

A emigração portuguesa para a Suíça começou nos anos 1960 e atingiu o pico nos anos 1980. Nessa época ainda existia o estatuto de sazonal (statut de saisonnier). Só acabou com a entrada em vigor do acordo de livre circulação com a UE, a 1 de junho de 2002: para contratos de menos de um ano, passou a haver a autorização de curta duração (L). Ainda hoje, setores como a agricultura e a hotelaria recorrem muito a trabalhadores sazonais.

A exposição de 2016 descrevia três gerações de mulheres:

1. As que chegaram nos anos 1980 ou antes: na maioria, amas, empregadas de limpeza ou donas de casa.

2. As filhas delas, que sentiram o preconceito logo na escola.

3. As que chegaram depois de 2000: mais bem aceites, mas muitas vezes com diplomas que não eram reconhecidos na Suíça.

O que dizem os números oficiais hoje

O perfil social da comunidade, publicado pela Embaixada de Portugal em Berna em março de 2026, dá uma imagem mais completa. No fim de 2025:

1. Havia 264 341 portugueses com autorização de residência na Suíça: a terceira comunidade estrangeira, com 10,9 % dos estrangeiros.

2. 23,1 % já nasceram na Suíça e 73,3 % têm autorização C (residência permanente).

3. Desde 1991, cerca de 58 000 portugueses obtiveram a nacionalidade suíça; só em 2025 foram 1834. Entre 2021 e 2025, os portugueses foram a quinta nacionalidade com mais naturalizações.

4. A embaixada conta 62 luso-eleitos, com cargos políticos nas comunas e nos cantões.

E as profissões? Não há estatísticas oficiais completas por nacionalidade e setor. O melhor retrato vem de um inquérito do Serviço Federal de Estatística (OFS), o «relevé structurel», com dados acumulados de 2018 a 2022 sobre os portugueses ativos com residência permanente. Os setores com mais portugueses:

1. Construção: 19,2 %.

2. Indústria: 12,9 %.

3. Comércio e reparação de automóveis: 11,2 %.

4. Saúde e ação social: 10,7 %.

5. Serviços administrativos e de apoio: 9,6 %.

6. Hotelaria e restauração: 8,2 %.

7. Transportes e logística: 4,3 %.

8. Atividades especializadas, científicas e técnicas: 3,8 %.

9. Ensino: 1,8 %.

Atenção: este inquérito deixa de fora os sazonais e o trabalho não declarado. Por isso, a embaixada avisa que a hotelaria, a agricultura e a limpeza estão com certeza abaixo da realidade.

Ainda assim, a conclusão é clara: a construção é o primeiro setor, mas quatro em cada cinco portugueses trabalham noutras áreas. Há quase tantos na saúde e na ação social como no comércio. Em Genebra e em Zurique, destacam-se também nos serviços administrativos e nas finanças; em Vaud, na saúde.

E há quem tenha criado o seu negócio. Um levantamento feito em 2025 por estudantes da Universidade de Neuchâtel, citado pela embaixada, encontrou cerca de 6000 empresas de origem portuguesa no registo do comércio, 4077 delas ativas, sobretudo na construção e no comércio. Se é o teu plano, vê o guia criar empresa na Suíça.

Os obstáculos que ainda existem

O diploma. Na Suíça, a maioria das profissões pode ser exercida sem reconhecimento oficial: é o empregador que decide. Mas as profissões de saúde, o ensino, a advocacia e outras são regulamentadas. Vê o guia reconhecimento de diplomas antes de te candidatares.

A escola dos filhos. Na Suíça, a orientação escolar acontece cedo e decide muito. Na exposição de 2016, várias mulheres contaram que os professores as desencorajaram de estudar medicina ou direito, porque a mãe era empregada de limpeza. Conhece o sistema, fala com a escola e lembra-te de que uma aprendizagem não fecha portas: ver o guia escola e família.

Como responder ao cliché

Não precisas de fazer uma guerra: basta mostrar a realidade.

1. No trabalho: responde com calma e com factos. «Sou contabilista. A minha mãe fez limpezas durante 20 anos, e tenho orgulho nisso.» Desarma o cliché sem humilhar ninguém.

2. Na escola: se um professor orientar o teu filho para baixo sem razões claras, pede uma reunião e pergunta em que se baseia. Leva as notas e os objetivos do teu filho.

3. Numa entrevista: não te defendas da tua origem. Fala da tua profissão, dos teus resultados e das línguas que falas. O português é uma vantagem, não um defeito.

4. No papel: o recrutador só vê o que está escrito. Um CV no formato suíço, com a profissão clara no topo, certificados de trabalho e o nível do diploma, mostra quem és antes de alguém adivinhar pela nacionalidade. Podes fazê-lo de graça no nosso editor de CV.

A comunidade de hoje

A comunidade portuguesa na Suíça já não é só a dos anos 1980. É feita de quem chegou com uma mala e trabalhou nas obras, e dos filhos e netos que hoje são enfermeiros, engenheiros, professores, empresários, polícias ou autarcas. Muitos têm as duas nacionalidades (vê o guia da naturalização).

Vê no mapa da comunidade onde vivem os portugueses em cada cantão, e no diretório de profissionais quem fala português e trabalha nas mais diversas áreas. O cliché só desaparece quando a realidade se vê.