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Vida na Suíça ·

Trabalhar e não chegar ao fim do mês: o que podes fazer na Suíça

Salários parados e seguro de saúde mais caro apertam muitas famílias que trabalham na Suíça. O que dizem os números oficiais e as ajudas que podes pedir já, a começar pelo subsídio do seguro.

Na Suíça, ter um emprego costuma ser sinónimo de vida estável. Mas não é sempre assim. Há quem trabalhe a tempo inteiro e, mesmo assim, chegue ao fim do mês sem conseguir pagar tudo. Se é o teu caso, não estás sozinho, e não é vergonha nenhuma. Neste artigo explicamos o que dizem os números e, sobretudo, o que podes fazer já.

O que dizem os números

Segundo o Serviço Federal de Estatística (OFS), 8,4 % da população vivia abaixo do limiar de pobreza em 2024, cerca de 743 000 pessoas. Os rendimentos usados nesse cálculo são os de 2023.

O mesmo OFS fixa o limiar de pobreza em 2388 francos por mês para uma pessoa sozinha e 4159 francos para um casal com dois filhos. Este valor é o que sobra para viver depois de pagar, entre outras coisas, a renda e o seguro de saúde.

As ajudas sociais fazem diferença. Segundo o OFS, sem elas a taxa de pobreza seria de 16,5 %. Ou seja, as ajudas reduzem a pobreza para metade. Guarda esta ideia: pedir o que é teu por direito conta.

A Caritas, organização de ajuda social, olha especificamente para quem trabalha. Segundo a Caritas, citada pela swissinfo, cerca de 360 000 trabalhadores, 8,8 % das pessoas com emprego, não ganham o suficiente para cobrir as despesas correntes da família. Contando com os restantes membros do agregado, são mais de 820 000 pessoas. Quase metade destes trabalhadores vive com crianças, e as famílias monoparentais estão entre as mais expostas. A Caritas usa um método próprio, por isso os números não são diretamente comparáveis com os do OFS.

Salários parados, seguro mais caro

O problema não é só o salário. É a diferença entre o que entra e o que sai.

Segundo a swissinfo, a Travail.Suisse, uma das grandes centrais sindicais, calcula que o poder de compra das famílias de rendimento médio caiu entre 1,5 % e 1,9 % de 2022 até ao fim de 2026, somando a inflação e a subida do seguro de saúde. Por isso pede aumentos de 2 % em média para 2027. A União Patronal Suíça contesta estes cálculos e diz que a prioridade é manter os empregos e travar os custos da saúde. Quem tem razão, cada um julgará. O que ninguém contesta é que o seguro pesa cada vez mais.

E vai pesar mais. Segundo o Serviço Federal da Saúde Pública (OFSP), o prémio médio mensal sobe 5,0 % em 2027, para 412 francos. Para um adulto, o prémio médio passa a 487,60 francos por mês. São médias nacionais: o teu prémio depende do cantão, da caixa, da idade, da franquia e do modelo.

O que podes fazer já

1. Pede o subsídio para o seguro de saúde. Chama-se réduction de primes em francês e Prämienverbilligung em alemão. Quem decide é o cantão onde vives, e as regras mudam de cantão para cantão. Em alguns é automático, noutros tens de fazer o pedido. Pergunta na comuna ou no serviço cantonal responsável. Muita gente com direito nunca o pede.

2. Compara o seguro antes de 30 de novembro. As caixas têm de te comunicar o prémio de 2027 até 31 de outubro. Segundo o OFSP, para mudar de caixa a carta de rescisão tem de chegar até 30 de novembro de 2026, e o conselho é enviá-la até 15 de novembro, registada. Atenção: se deveres prémios à caixa atual, podes ficar impedido de mudar.

3. Revê a franquia e o modelo. Uma franquia mais alta baixa o prémio, mas pagas mais do teu bolso se ficares doente. Só vale a pena se raramente vais ao médico e tens uma reserva para imprevistos. Os modelos com médico de família, telemedicina ou farmácia costumam ser mais baratos. Segundo o OFSP, para baixar a franquia ou mudar de modelo especial tens até 30 de novembro; para subir a franquia, até 31 de dezembro.

4. Confirma o teu salário. Verifica se recebes pelo menos o salário mínimo do teu cantão ou da tua convenção coletiva, se existir. E confirma quanto deve sobrar de líquido depois dos descontos.

5. Olha para a renda. Se a taxa de referência hipotecária baixou desde a assinatura do contrato, podes ter direito a pedir uma redução da renda.

6. Fala com quem sabe. Os serviços sociais da tua comuna, a Caritas e outras associações dão aconselhamento sobre orçamento e dívidas. É gratuito e confidencial na maior parte dos casos.

Ajudas que existem, e para quem

As prestações complementares (PC, ou Ergänzungsleistungen) são só para quem já recebe uma pensão AVS ou AI. Não são uma ajuda para quem trabalha e ganha pouco. Alguns cantões têm ajudas próprias para famílias com rendimentos baixos. Pergunta no teu.

A ajuda social (aide sociale, Sozialhilfe) é a última rede. Pede-se na comuna onde vives. Mas, se não tens nacionalidade suíça, há um ponto importante: segundo a lei dos estrangeiros (LEI, artigos 62 e 63), depender da ajuda social pode levar a que a tua autorização de residência não seja renovada ou seja revogada. Para a autorização C, a lei fala de uma dependência duradoura e em larga medida. Cada caso é analisado individualmente. Antes de pedir, procura aconselhamento junto de um serviço social, de uma associação ou de um advogado. Não deixes de pedir ajuda por medo, mas informa-te primeiro.

As mercearias da Caritas (épiceries Caritas, Caritas-Märkte) vendem alimentos e produtos de base mais baratos a quem vive com um orçamento apertado. Precisas de um cartão de compras, que se pede através do site da Caritas. Existem lojas em várias localidades da Suíça francesa e alemã.

Em resumo

Trabalhar e mesmo assim não chegar ao fim do mês acontece a muita gente na Suíça. Não é falha tua. Começa pelo mais rápido: o subsídio do seguro e a comparação dos prémios antes de 30 de novembro. Depois, revê o salário e a renda. Se precisares de mais, pede conselho antes de qualquer pedido de ajuda social.

As regras e os montantes mudam todos os anos e de cantão para cantão. Confirma sempre junto da tua comuna ou do teu cantão.