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Vida na Suíça ·

A neutralidade da Suíça: de onde vem, o que quer dizer e o que mudou com a guerra na Ucrânia

A Suíça é neutra desde 1815, mas não está isolada: é membro da ONU e aplicou as sanções contra a Rússia. Em setembro de 2026, 70 % dos eleitores recusaram uma neutralidade mais rígida na Constituição. O que é a neutralidade, explicado de forma simples.

Quando se fala da Suíça, fala-se de neutralidade. É uma das ideias mais fortes da identidade suíça, mas também uma das mais mal compreendidas. Neutral não quer dizer sem opinião, nem fechado ao mundo. E a guerra na Ucrânia reabriu o debate, até numa votação em 2026.

De onde vem: 1815

A neutralidade da Suíça foi reconhecida pelas grandes potências europeias em 1815, em dois tempos. Primeiro, a 20 de março, no Congresso de Viena, declararam que a neutralidade perpétua da Suíça era do interesse de toda a Europa e garantiram os 22 cantões. Depois, a 20 de novembro, num ato assinado em Paris, reconheceram e garantiram formalmente a sua «neutralidade perpétua» e a inviolabilidade do seu território.

Curiosamente, segundo o historiador Olivier Meuwly, a neutralidade foi na altura «mais imposta do que escolhida»: as potências queriam uma Suíça estável entre a França e a Áustria. Só depois se tornou uma parte essencial da identidade suíça.

Desde então, a Suíça não entrou em nenhuma guerra entre Estados. Nas duas guerras mundiais ficou neutra, mas mobilizou o exército para defender as fronteiras: é a ideia de neutralidade armada.

O que quer dizer, na prática

As regras do direito da neutralidade foram escritas nas Convenções da Haia de 1907. Em resumo, um país neutro:

1. Não participa em guerras entre outros Estados.

2. Não dá apoio militar a nenhum dos lados: não fornece armas dos stocks do Estado nem soldados.

3. Não deixa os países em guerra usarem o seu território.

4. Trata os dois lados de forma igual nas exportações privadas de material de guerra.

Em troca, o seu território não pode ser atacado.

O que a neutralidade NÃO quer dizer

Neutral não quer dizer isolado. A Suíça:

1. É membro da ONU desde 2002 e foi membro do Conselho de Segurança em 2023 e 2024.

2. Não é membro da NATO nem da União Europeia, mas coopera com a NATO na Parceria para a Paz desde 1996.

3. Oferece os seus «bons ofícios»: acolhe negociações de paz, representa países que cortaram relações entre si e recebe em Genebra muitas organizações internacionais, como a Cruz Vermelha.

4. Dá ajuda humanitária em zonas de guerra.

A guerra na Ucrânia: o grande teste

Em fevereiro de 2022, poucos dias depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, a Suíça decidiu aplicar as sanções da União Europeia contra a Rússia. Foi uma decisão histórica, muito discutida: para uns, a Suíça continuou neutra (não participa na guerra, só nas sanções económicas); para outros, deixou de o ser.

Ao mesmo tempo, a Suíça recusou que países como a Alemanha ou a Dinamarca reenviassem para a Ucrânia munições e armas compradas na Suíça, porque a lei suíça o proíbe para países em guerra. Isto valeu-lhe críticas dos vizinhos europeus. A Suíça também organizou duas conferências sobre a Ucrânia: a da reconstrução, em Lugano (2022), e uma cimeira para a paz no Bürgenstock (2024).

No resto da Europa, a guerra mudou muita coisa: a Finlândia e a Suécia, que durante décadas ficaram fora das alianças militares, entraram na NATO em 2023 e em 2024. Outros países continuam neutros, como a Áustria (desde 1955), a Irlanda ou Malta, cada um com a sua forma de neutralidade.

A votação de 27 de setembro de 2026

Uma iniciativa popular, apoiada sobretudo pela UDC, queria escrever na Constituição uma neutralidade «perpétua e armada» mais rígida: a Suíça não poderia entrar em nenhuma aliança militar ou de defesa, nem aplicar sanções a um país em guerra, salvo as decididas pela ONU.

O Conselho Federal e o Parlamento recomendaram o «não»: achavam que a iniciativa tirava margem de manobra à Suíça e, no fundo, enfraquecia a neutralidade em vez de a reforçar.

O resultado foi claro: 70,2 % de «não», com uma participação de 47 %, e nenhum cantão a favor. O Ticino foi onde o «sim» chegou mais perto. Depois da votação, o Governo lembrou que este não foi um voto contra a neutralidade: a Suíça continua neutra, mas sem uma regra mais rígida na Constituição.

E os portugueses na Suíça?

Portugal é membro fundador da NATO e da União Europeia; a Suíça não é membro de nenhuma das duas. São duas maneiras diferentes de estar no mundo. Para quem vive na Suíça, a neutralidade explica muitas coisas do dia a dia: o serviço militar obrigatório para os homens suíços, os abrigos antiaéreos nos prédios e o orgulho pela Genebra internacional.

Se tens a nacionalidade suíça, votas nestas questões. Se ainda não tens, vê o guia sobre a naturalização e o artigo sobre como funciona a política na Suíça.